sábado, 2 de maio de 2009

Castelo de areia

A descrição do cenário torna-se irrelevante pela tua graciosa beleza, aquele nascer do sol refletindo nas fantásticas ondas de um mar límpido, envolvente que aparenta nesta manhã calorosa fazer um convite, um convite ao aconchego dos teus suaves suspiros.
Neste cenário, surge em cada grão, em cada pequeno detalhe, um castelo, um castelo de areia, com tuas torres com aquele feitiço de bruxas, que aprisiona a mais bela das princesas, há cavaleiros, dragões e um príncipe apaixonado que tira a tua própria vida para simplesmente conquistar, a cada dia uma torre deste castelo em busca desta tua princesa, com quem sonha.
Enfrenta os dragões, e todos os inimigos que eu coloquei no castelo, protegidos por este forte paredão, protejo-os, pois sei que necessitam de minha proteção.
Neste castelo há escadarias que nos levam aos pontos mais altos de nossa vida, mas também nos levam aos porões onde escondemos nossos medos, angústias e desesperos. Há aquele pátio central onde acontecem as apresentações de todos os sentimentos.
Uma perfeita harmonia, contagiante, pura, um lugar ideal para se viver, construído pelas minhas mãos guiadas indescritivelmente com razão pelo meu coração, e defronte deste feito, descrevo-o como poesia, onde palavras ordenadas aparecem como a brincadeira mais sadia e sensata que o homem pode fazer, surge aquele castelo.
Aquela imensidão de areia, por onde entro naquele portão central, observo as muralhas de proteção que chegam a tocar as nuvens, só ficam abaixo daquelas torres centrais, que me traz o receio de subir aquela escadaria, porém sei que ali encontrarei o meu tesouro, e não haverá maldição nem feitiço que me faça perder o amor que encontrarei ali, passo por entre os plebeus como se fosse um deles, passo como cavaleiro neste estábulo com os mais divinos e imponentes cavalos. Passo como pessoa. Apareço como um sonhador.
Lenhadores, costureiras, guerreiros, lutadores, bobos da corte, o rei, os magos, pessoas, animais, estátuas, dragões, cavaleiros, armaduras, o riacho que rodeia o castelo, os peixes, as flores, arbustos, pássaros, visões e todos os sons. Eu, o amor e a princesa, passamos a ser apenas areia.
Aquela magnífica onda chega e com um relance de imponência e tenebroso som, arrasta todo aquele sonho, e o transforma em areia e espuma, areia, espuma e movimento.
Mas não me desespero, creio que toda aquela ilusão desejada, foi tragada e dissolvida como um ataque de ciúmes deste mar, que queria todo aquele sentimento bom que eu depositei naquela escultura. E que agora está com ele, mais envolvente que todos os outros, buscando no horizonte, um contato com o céu.
Levanto-me sorrindo, dirijo-me alguns poucos passos mais distante das ondas que me chamam, e novamente me posto a iniciar um novo castelo, com toda a perfeição e dedicação que faltava. Não reproduzindo o mesmo castelo, nem os mesmos sonhos, apenas sonhando com ele. Com ela. Com tudo aquilo que o mar virá buscar mais tarde. Com todo o amor que alguma outra onda aconchegará este meu sonho, perante um novo céu alaranjado de amor da despedida, e contemplando a despedida do sol e o surgimento da lua e suas estrelas.
Buscar em forma de onda, o meu castelo de areia em forma de sonhos.

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