_ Qual a chance de voltar a encontrar-te por aqui, em uma próxima vez que eu vier lhe procurar? – perguntou um garoto àquela brisa que lhe tocava o rosto naquele entardecer, onde o céu se tornara alaranjado de gratidão pelo pequeno expectador que o contemplava com a sua maravilhosa companhia.
_ Praticamente todos os dias, meu bem! – respondeu a garota por quem o garoto as apaixonara sem tocar – Eu estarei contigo sempre, em todos os lugares, em todos os instantes.
O garoto feliz por tudo o que vivera aquele instante acreditou que aquela brisa fosse um anjo, e como diz Clarice Lispector “Ela acreditava em anjos, e por que acreditava, eles existiam”, assim ele imaginava o anjo que passara aquela tarde acolhendo-o em corpo e alma, pensava que às vezes os anjos podiam não ter asas como diziam os contos, como mostravam os filmes, mas que os anjos não são simplesmente como enxergamos as pessoas, mas sim como as imaginamos. Mas este raio e brisa em um só ser, era, em uma só pessoa, todos os anjos contidos em uma só imagem, que ao fechar os olhos e sentir-se abraçado, e algumas vezes até beijado, ele via, desfrutava e assim sonhava diversas vezes acordado.
No caminho de volta para casa, após se despedir de toda a cena que ele ousara em criar e descobrir, mas que se contasse ou que se mostrasse para alguma pessoa, ninguém acreditaria nele, passaria como um louco que sempre quisera um amor e encontrara um, perfeito, mas que está mais ao longe do que o horizonte pudesse lhe mostrar.
Seguindo por aquele quarteirão, sentia a brisa lhe acompanhar e via as flores na calçada se movendo ao toque suave deste teu sonho, via as folhas de árvores que se deixavam acolher sem medo de uma possível queda livre das mais altas, simplesmente para sentir uma única vez o toque supremo daquela que conseguira fazer com que a folha se apaixonasse e se desatasse de seu galho, para viver este amor.
Praticamente todos os dias ele viveria este amor e assim ele ficou acordado por muitas horas em teus pensamentos e em tudo o que via. Abriu a janela para ouvir um “Boa Noite, Durma bem meu amor”. Dormiu.
Aquela brisa entrara em teu quarto, como se em um desejo pretendido daquela que se fez anjo para este garoto, e ficou ali, acordada simplesmente para ouvi-lo respirando enquanto dormia e de uma forma inexplicável chegou tão perto do garoto que este inspirou esta brisa de amor, que tomou conta de teu peito e o fez sonhar com ela – a partir de agora o teu Anjo, a tua amada.
Naquele sonho, a brisa saiu dos pulmões do garoto pelo suspiro apaixonado que este, inconscientemente, soltou e antes de ficar triste por ter saído do peito dele, viu-o sorrindo e com alegria também, se aconchegou ali.
O garoto acordou sentindo o perfume Secreto de uma Vitória do teu amor e foi este odor maravilhoso que lhe fez acordar com algo inexplicável por esta garota, o coração dele acelerou por exaltação e esta garota que se tornou o anjo que se comunica em brisa e vento provenientes de terras muito distantes, onde Barreira nenhuma poderá impedir o sentimento.
Ele levantou de sua cama, e foi até o local onde eles se encontraram na primeira vez, pode senti-la como se estivesse ali, mas não conseguia vê-la. O anjo desesperado se esgotava em forças para fazer ventos mais fortes, com sopros, suspiros ou mesmo – se possível – com o bater de suas asas, entretanto o garoto não a via, mas podia sentir, sabia que ela se esforçava.
Pediu uns instantes a ela, para que ela o esperasse naquele mesmo lugar, que ele voltaria com uma surpresa. Ele voltou com umas folhas, cola, tesoura, palitos e um alfinete. Ela pensara que a surpresa seria um presente, imaginou que fosse qualquer coisa, mas ele sentou ali, chamou-a e disse para ela apenas olhar.
O vento cessou atento apenas ao garoto, os barcos à vela pararam de navegar, as folhas não mais caíram, os moinhos se tornaram estáticos, não havia vento para ninguém. A atenção era apenas naquele garoto.
Ele dobrou a folha em algumas partes como se abraçasse definitivamente e marcasse na memória daquele papel que este foi eternamente abraçado pelo garoto, cortou a folha como quem fizesse uma cirurgia em seu próprio corpo, com todo cuidado, zelo como se estivesse gravando na casca de uma árvore os nomes de seu anjo e o seu próprio nome, era o sinônimo do amor.
O papel colorido foi novamente dobrado, mas agora com delicadeza e sem marcas, voltando todas as pontas para o centro do papel, como se mostrasse que o centro das atenções seria as uniões dos quatro pontos: amor, respeito, carinho e ao ultimo ponto colocaria o Anjo, que se ligariam ao centro – ele – para sempre. O alfinete que perfurara estes pontos, fixando-os, simbolizava aquela imortal flecha que corta os corações dos apaixonados.
Sem entender o sorriso do garoto com aquele fascinante objeto em suas mãos e o sorriso exposto na face dele, o anjo pediu uma explicação.
Ele, ainda sentado no banco daquele lugar, levantou o objeto – um cata-vento – e disse:
_ Simples, este cata-vento é o meu coração...
O Anjo ainda questionara, sem entender, por que ela tinha entrado em teu peito na noite anterior e visto o coração dele como nenhuma outra pessoa iria ver. Ele sorriu e continuou:
_ Eu sei que você já viu meu coração, mas sei também que não será sempre que eu poderei ter a gratificante sensação de sentir-te assim comigo. E mais, você, nem sempre poderá ver o quão feliz eu estou ao te sentir tão pertinho de mim. Eu fiz este cata-vento para que seja possível eu lhe ver, e você ver a minha reação quando isto acontecer.
Era tão lindo o que o garoto dizia que o Anjo, suspirou.
Este suspiro fez o cata-vento virar, linda e indescritivelmente, os olhos do Anjo se encheram de lágrimas de felicidade e o garoto continuou:
_ O cata-vento, meu anjo, é o meu coração, e qualquer brisa que haver perto de mim é você, meu amor, como este teu suspiro que acabara de soltar. Agora posso te mostrar o quanto o meu coração se agita ao te ver e mesmo eu estando paralisado pela tua beleza, pelo teu sorriso, neutralizado pelo teu olhar.
Você é a ventania que em sentimentos faz a minha fragata chegar a destinos que eu nunca pensei em ir, você é o vento repentino que espanta as nuvens negras que querem desaguar lágrimas em meus olhos, e agora eu te mostro que você é a brisa que faz girar o cata-vento de minha alegria.
Após ouvir isto, os veleiros voltaram a se mover, as folhas caírem em aconchego do vento e o garoto... O cata-vento eternamente ficou a girar.
domingo, 22 de agosto de 2010
domingo, 1 de agosto de 2010
Toda Impossibilidade de um amor.
Uma história comum que muitas pessoas contam e que alguns sábios sempre tomaram como uma lição de vida, onde de forma simples, com cenários reais e expressão de animais (dos quais sempre são mencionados, à medida que se nota que o amor do ouvinte é realmente verdadeiro, onde nos colocamos na alma do personagem principal).
Era uma noite, fria e triste para um jovem rapaz, sentara em um banco no centro de uma praça, deserta, refletia sobre por que nunca conseguira conquistar o teu amor e estava a aceitar a sugestão do mundo. Esquecê-la e partir para o tradicional – deixar o coração fechado para relacionamentos e desfrutar de pessoas.
A lua estava forte, mas este nem a notava exceto para questionar o porquê de tudo isto acontecer com ele e buscar na face da lua a resposta e possivelmente um amparo, o banco onde este sentara era muito bem iluminado por um poste que o deixava em evidência perante aquela praça, notavelmente qualquer um poderia ver que o rapaz sentia-se muito incomodado com o teu coração escalpelado, pois estava demasiadamente entristecido. Mas agora algo a mais o incomodara: as pequenas mariposas que ficavam voando no lustre e que algumas vezes trombavam com os seus sentimentos. Revoltado ele ameaçava movimentos bruscos e alguns palavrões para que as pequenas voadoras incessantes saíssem de perto dele.
Aparentemente as mariposas estavam felizes, e isto irritava mais ainda o rapaz, ao ponto de derrubar várias mariposas e em alguns casos até pisar em cima de outras. Um velho senhor se aproximou dele sem que ele percebe-se, o rapaz estava cego pela ira que este descontara nas pobres mariposas que estavam derrubadas ao chão. O senhor engoliu o sorriso de felicidade que o rapaz trazia pela vingança injusta que aprontara para as mariposas, engoliu e fez-se predominante com o próprio sorriso cansado por causa da idade, mas sincero de tanta sabedoria:
_ Olá, meu jovem! Notavelmente você não está simplesmente matando estas mariposas apenas por matar – e como se vendesse sonhos prosseguiu – você passa por dores e quer que algo ou alguém saiba disso, pois bem, eu sei... – uma pausa longa para que os olhares se encontrassem -... Agora, detenha o meu vôo também, meu jovem.
O rapaz ficou mais furioso com o enfrentamento do velho, respirou fundo e bufou como se resmungasse palavrões para aquele velho desconhecido que o importunara naquela hora tão inconveniente.
O velho continuou:
_ Meu caro, você é bem mais alto, mais forte e astuto que estas mariposas, e assim aniquila com as possibilidades de vôo delas, mas e a mim, por que não ages? – quando o rapaz virou-se para o velho como se fosse realmente partir para discussão e talvez mais do que isto, o velho continuou – mas enquanto a você, por que não voas mais alto? Por que não te largas a própria armadura e voa?
Como o velho disse, o rapaz esmoreceu, sentou-se no banco e reclinou a cabeça, como se realmente lamentasse, os olhos que buscavam algo além dos próprios sapatos se fecharam. Uma única gota de lágrima ameaçou a escorrer quando o rapaz foi interrompido com a mão trêmula do velho em seu ombro, os sons característicos provenientes de gemidos de dor de uma pessoa de idade avançada sentando ao seu lado e com a seguinte frase:
_ Meu filho, chorando você vai criar um mar, eu lhe disse para você voar, e não navegar.
O velho inconveniente conseguiu um sorriso do rapaz, um sorriso sincero emocionado. E emocionado o rapaz quis perguntar algo para o velho, como saber quem ele era, o que fazia acordado aquela noite, ou algo assim, mas uma angústia embolava-o na garganta, aparentemente seria aquele choro que foi contigo com o sorriso. Nenhuma palavra saiu, apenas observou.
O velho era bem trajado, uma camisa azul marinho, com umas listras brancas bem finas na vertical, uma calça clara, com cor parecida com creme, sapatos marrons com o bico do sapato pretos, o velho senhor estava com uma bengala bonita, escura bem cuidada, aparentemente envernizada recentemente. Tinha olhos negros que necessitavam de grandes lentes daqueles óculos que aparentemente era essencial para que este pudesse ver o mundo, sobrancelhas largas com alguns fios brancos, assim como o cabelo, que apresentava pouquíssimos fios enegrecidos.
_ Está vendo estas mariposas? Percebeste que elas são frágeis, sensíveis e voam ao redor deste poste de luz? Certamente você notou que algumas caem sobre você, mas o mais certo ainda é que você não percebeu que estas que caem perto de ti estão levemente queimadas pela luz do poste...
O rapaz abriu bem os olhos como se estivesse espantado com o velho, dizendo tantas palavras sobre estes pequenos seres voadores, pensou que o velho inteligente deveria ser um ambientalista ou algum defensor de uma causa destas, mas não interrompeu o velho, que em um astuto movimento pegou uma mariposa que caíra em seu colo e mostrou-lhe as queimaduras em suas asas, segurou-a com as asas fechadas levemente colocou-a no dorso de sua mão e deixou que esta voasse novamente.
_ Eu morava em um lugar lindo, com a sua idade, meu jovem, um campo grande em um vale que em dias de Primavera se parecia com um tapete de flores, eu adorava correr por aquelas campinas e foi lá que eu conheci a mais linda garota que eu havia e que pude ver na minha vida.
Ela era doce, meiga, ela tinha cabelos negros lisos e esvoaçantes, ela aparentava olhos tão lindos e sorridentes que você poderia se perder neles, o sorriso dela te desconsertava, você, meu jovem, poderia se apaixonar por ela simplesmente se ela olhasse para você... – os olhos do bom senhor encheram de lagrimas de saudade.
Era nesta campina que nos encontrávamos, e lá passamos a conjugar todos os verbos de uma forma só, na primeira pessoa do plural. A cada dia eu lhe levava uma flor daquele lindo lugar, até que eu vi uma borboleta tão linda, leve, a borboleta tinha a beleza das flores e mais, tinha o movimento e toda a euforia de capturá-la, pois bem decidi presenteá-la, foram diversas manhãs acordando mais cedo e me preparando. Peguei um pote bem grande de vidro, e a cada borboleta diferente eu colocava neste pote em uma semana eu já tinha muitas borboletas, aquele pote era lindo. No final de semana eu a presentearia.
Chegou o dia, e a primeira coisa que ela fez foi me dar um abraço e chorar, perguntei o motivo e ela me explicou com as minhas próprias palavras, “sabe quando toda a vez que você se despede de mim, você volta para me dar mais um abraço? E me traz mais uma flor? E me diz que detesta despedidas e meus olhos se enchem de brilho e felicidade e lhe digo que não mereço isto? Então, meu amor, hoje começo com a despedida pois sei que vamos demorar.”
Ela iria se mudar, ficar longe, e talvez nunca mais nos veríamos, ela queria me poupar de qualquer tristeza e por isto não queria que eu mais a amasse, o que eu disse a ela que seria impossível, mas que como conversamos eu desejo a ela toda a felicidade do mundo e se os ventos levariam a mais bela flor que pude cultivar, a única coisa que eu poderia pedir é que um dia pudesse voltar a vê-la, senti-la e por que não novamente regá-la com todo o meu amor.
_ E as borboletas. Senhor? – indagou o rapaz se encaixando como o personagem principal da história.
_ As borboletas, eu abri o pote de vidro, na manhã seguinte, algumas saíram rapidamente, muito antes de as minhas lágrimas tocarem ao solo, mas outras ainda demoraram como se ficassem observando-me naquele lamento. Passei a ser taciturno e observar a noite, por que na noite as flores do vale não eram tão bonitas quanto às lembranças da garota. De noite eu via vagalumes e mariposas, comecei a observá-los, algumas vezes capturava-os e colocava no pote, mas sem intenção de soltá-los. Que estes padecessem no pote, como o meu sentimento dentro do meu coração.
Observando as inúmeras mariposas que eu tinha no pote, uma noite, peguei uma lamparina acesa e colocava-a perto do pote para que sua luz atraísse as mariposas para um único lado do vidro, a grande maioria ia, exceto uma. Só um bom tempo depois, mudando o frasco, a lamparina, percebi que esta mariposa ficava apenas na direção da janela aberta que deixava uma brisa fresca entrar em meu quarto, isto me intrigou profundamente.
No dia seguinte recebo uma carta, daquela garota, que estava distante, em uma cidade grande, a carta tinha perfume, tinha cor, carinho e amor...
O senhor suspirou fundo, levantou-se se apoiando no rapaz e pegou um lenço que estava em seu bolso de traz da calça, e também pegou a sua carteira, da qual tirara um papel todo amarelado, com as bordas rasgadas e quase esfarelando, era um papel velho, mas dobrado com carinho e com maior zelo ele abriu e começou a ler:
“Amor, aqui, longe de ti, pude perceber que você é a pessoa mais especial que pode passar em minha vida, eu estou bem, tenho um emprego bom aqui, minha família está mais unida, estamos todos bem, espero que esta carta chegue a você e não se perca como o teu lindo e fascinante pote de borboletas, o qual eu abriria contigo e me encantaria com todo o amor que tivesse dado a cada borboleta daquele vidro. Sim, eu sabia que ele existia. E sei que você libertou-as com o coração tão apertado quanto ao me dizer para seguir em frente e ser feliz, pois você não queria parar o meu vôo...”
O velho parou de ler, ficou olhando para o papel e depois de um bom tempo o dobrou com cuidado e novamente colocou-o em sua carteira, guardando-a, quando o rapaz o interrogou:
_ Prossiga senhor, e vocês? Ficaram juntos? Como foi? – apoiando a mão sobre a perna do senhor para que este pudesse senti-lo e ao mesmo tempo não levantasse para se despedir – me conte, me conte mais, pelo brilho triste de teus olhos vocês não ficaram juntos...
O velho olhou para o rapaz sorriu como se acabasse de chegar e disse de uma forma calma e clara:
_ Sabes por que aquela mariposa não seguia a luz da lamparina? Por que ela se apaixonou por uma estrela que sempre via da janela do meu quarto. Você mesmo pode questionar que mariposas não podem se apaixonar por estrelas, pois as estrelas não foram feitas para que mariposas possam voar em torno delas. Para as mariposas haveriam luminárias, postes, lamparinas.
Mesmo assim a mariposa poderia se sentir alegre ao sonhar, durante a noite a estrela continuava lá e a mariposa poderia subir até o céu e demonstrar todo o seu amor voando em torno daquela luz radiante, poderia. Seria muito difícil ir além da altura com que estava acostumada a voar. Mas isto não iria fazer com que a mariposa desistisse. Se a cada dia ela pudesse voar um pouco mais alto, com paciência ela poderia chegar ao seu amor.
Todas as outras mariposas já estavam queimadas pelas lâmpadas e chamas, onde poderia apenas o calor de lâmpadas e chamas aquecer o coração de uma mariposa e não uma estrela, distante. Mesmo esta mariposa tentando se apaixonar por abajures, luminárias ou velas, nada a fazia esquecer da estrela. Ela poderia sim, retomar a sua caminhada ao céu.
Ela poderia a cada noite voar mais alto e mesmo quando a manhã chegasse e o frio e tristeza a apertasse por não ter encontrado a estrela, com o tempo ela poderia perceber que lá do alto ela poderia ver as cidades cheias de luzes, onde talvez as outras mariposas já houvessem encontrado um amor, poderia ver montanhas geladas, oceanos, nuvens que mudavam de forma, seguir os ventos de montes, poderia ser levada pela brisa da noite, assim esta mariposa passou a amar cada vez mais a tua estrela, por que esta estrela levava a pequena mariposa para um passeio em um mundo tão rico e lindo.
Ela viveria muito mais do que as outras mariposas que se renderam a um amor fácil e que morreriam pelas queimaduras deste amor.
O velho se levantou e com um sorriso de despedida disse que estava atrasado e seguiu com os seus passos calmos e cansados acompanhado pelos olhos do rapaz que lhe perguntou:
_ Senhor, qual a moral da história? É muito bonita, intrigante, porém eu não entendi algumas coisas, como se você encontrou a garota com que vivera, por que toda vez você enfatizava o “poderia” ao falar da mariposa, e qual a moral da história?
_ Meu jovem – o senhor parou, se virou e continuou - a moral da história? Claro, quando você chega na estrela, ela não te queima e sim te cuida e sempre sentirá a tua falta na noite seguinte que você demorar para chegar em casa.
Sobre os “poderia” da história, é que a mariposa poderia fazer tudo aquilo novamente se uma brisa de uma noite não a levasse ser presa em um frasco de vidro e assim ela poderia viver e sentir na pele, compreendendo que, às vezes, os amores impossíveis trazem muito mais alegrias e benefícios que aqueles que estão ao alcance de nossas mãos. E a moral, a moral da história meu jovem, é que eu acabo de abrir o pote de vidro que o aprisionara. Uma boa noite...
Era uma noite, fria e triste para um jovem rapaz, sentara em um banco no centro de uma praça, deserta, refletia sobre por que nunca conseguira conquistar o teu amor e estava a aceitar a sugestão do mundo. Esquecê-la e partir para o tradicional – deixar o coração fechado para relacionamentos e desfrutar de pessoas.
A lua estava forte, mas este nem a notava exceto para questionar o porquê de tudo isto acontecer com ele e buscar na face da lua a resposta e possivelmente um amparo, o banco onde este sentara era muito bem iluminado por um poste que o deixava em evidência perante aquela praça, notavelmente qualquer um poderia ver que o rapaz sentia-se muito incomodado com o teu coração escalpelado, pois estava demasiadamente entristecido. Mas agora algo a mais o incomodara: as pequenas mariposas que ficavam voando no lustre e que algumas vezes trombavam com os seus sentimentos. Revoltado ele ameaçava movimentos bruscos e alguns palavrões para que as pequenas voadoras incessantes saíssem de perto dele.
Aparentemente as mariposas estavam felizes, e isto irritava mais ainda o rapaz, ao ponto de derrubar várias mariposas e em alguns casos até pisar em cima de outras. Um velho senhor se aproximou dele sem que ele percebe-se, o rapaz estava cego pela ira que este descontara nas pobres mariposas que estavam derrubadas ao chão. O senhor engoliu o sorriso de felicidade que o rapaz trazia pela vingança injusta que aprontara para as mariposas, engoliu e fez-se predominante com o próprio sorriso cansado por causa da idade, mas sincero de tanta sabedoria:
_ Olá, meu jovem! Notavelmente você não está simplesmente matando estas mariposas apenas por matar – e como se vendesse sonhos prosseguiu – você passa por dores e quer que algo ou alguém saiba disso, pois bem, eu sei... – uma pausa longa para que os olhares se encontrassem -... Agora, detenha o meu vôo também, meu jovem.
O rapaz ficou mais furioso com o enfrentamento do velho, respirou fundo e bufou como se resmungasse palavrões para aquele velho desconhecido que o importunara naquela hora tão inconveniente.
O velho continuou:
_ Meu caro, você é bem mais alto, mais forte e astuto que estas mariposas, e assim aniquila com as possibilidades de vôo delas, mas e a mim, por que não ages? – quando o rapaz virou-se para o velho como se fosse realmente partir para discussão e talvez mais do que isto, o velho continuou – mas enquanto a você, por que não voas mais alto? Por que não te largas a própria armadura e voa?
Como o velho disse, o rapaz esmoreceu, sentou-se no banco e reclinou a cabeça, como se realmente lamentasse, os olhos que buscavam algo além dos próprios sapatos se fecharam. Uma única gota de lágrima ameaçou a escorrer quando o rapaz foi interrompido com a mão trêmula do velho em seu ombro, os sons característicos provenientes de gemidos de dor de uma pessoa de idade avançada sentando ao seu lado e com a seguinte frase:
_ Meu filho, chorando você vai criar um mar, eu lhe disse para você voar, e não navegar.
O velho inconveniente conseguiu um sorriso do rapaz, um sorriso sincero emocionado. E emocionado o rapaz quis perguntar algo para o velho, como saber quem ele era, o que fazia acordado aquela noite, ou algo assim, mas uma angústia embolava-o na garganta, aparentemente seria aquele choro que foi contigo com o sorriso. Nenhuma palavra saiu, apenas observou.
O velho era bem trajado, uma camisa azul marinho, com umas listras brancas bem finas na vertical, uma calça clara, com cor parecida com creme, sapatos marrons com o bico do sapato pretos, o velho senhor estava com uma bengala bonita, escura bem cuidada, aparentemente envernizada recentemente. Tinha olhos negros que necessitavam de grandes lentes daqueles óculos que aparentemente era essencial para que este pudesse ver o mundo, sobrancelhas largas com alguns fios brancos, assim como o cabelo, que apresentava pouquíssimos fios enegrecidos.
_ Está vendo estas mariposas? Percebeste que elas são frágeis, sensíveis e voam ao redor deste poste de luz? Certamente você notou que algumas caem sobre você, mas o mais certo ainda é que você não percebeu que estas que caem perto de ti estão levemente queimadas pela luz do poste...
O rapaz abriu bem os olhos como se estivesse espantado com o velho, dizendo tantas palavras sobre estes pequenos seres voadores, pensou que o velho inteligente deveria ser um ambientalista ou algum defensor de uma causa destas, mas não interrompeu o velho, que em um astuto movimento pegou uma mariposa que caíra em seu colo e mostrou-lhe as queimaduras em suas asas, segurou-a com as asas fechadas levemente colocou-a no dorso de sua mão e deixou que esta voasse novamente.
_ Eu morava em um lugar lindo, com a sua idade, meu jovem, um campo grande em um vale que em dias de Primavera se parecia com um tapete de flores, eu adorava correr por aquelas campinas e foi lá que eu conheci a mais linda garota que eu havia e que pude ver na minha vida.
Ela era doce, meiga, ela tinha cabelos negros lisos e esvoaçantes, ela aparentava olhos tão lindos e sorridentes que você poderia se perder neles, o sorriso dela te desconsertava, você, meu jovem, poderia se apaixonar por ela simplesmente se ela olhasse para você... – os olhos do bom senhor encheram de lagrimas de saudade.
Era nesta campina que nos encontrávamos, e lá passamos a conjugar todos os verbos de uma forma só, na primeira pessoa do plural. A cada dia eu lhe levava uma flor daquele lindo lugar, até que eu vi uma borboleta tão linda, leve, a borboleta tinha a beleza das flores e mais, tinha o movimento e toda a euforia de capturá-la, pois bem decidi presenteá-la, foram diversas manhãs acordando mais cedo e me preparando. Peguei um pote bem grande de vidro, e a cada borboleta diferente eu colocava neste pote em uma semana eu já tinha muitas borboletas, aquele pote era lindo. No final de semana eu a presentearia.
Chegou o dia, e a primeira coisa que ela fez foi me dar um abraço e chorar, perguntei o motivo e ela me explicou com as minhas próprias palavras, “sabe quando toda a vez que você se despede de mim, você volta para me dar mais um abraço? E me traz mais uma flor? E me diz que detesta despedidas e meus olhos se enchem de brilho e felicidade e lhe digo que não mereço isto? Então, meu amor, hoje começo com a despedida pois sei que vamos demorar.”
Ela iria se mudar, ficar longe, e talvez nunca mais nos veríamos, ela queria me poupar de qualquer tristeza e por isto não queria que eu mais a amasse, o que eu disse a ela que seria impossível, mas que como conversamos eu desejo a ela toda a felicidade do mundo e se os ventos levariam a mais bela flor que pude cultivar, a única coisa que eu poderia pedir é que um dia pudesse voltar a vê-la, senti-la e por que não novamente regá-la com todo o meu amor.
_ E as borboletas. Senhor? – indagou o rapaz se encaixando como o personagem principal da história.
_ As borboletas, eu abri o pote de vidro, na manhã seguinte, algumas saíram rapidamente, muito antes de as minhas lágrimas tocarem ao solo, mas outras ainda demoraram como se ficassem observando-me naquele lamento. Passei a ser taciturno e observar a noite, por que na noite as flores do vale não eram tão bonitas quanto às lembranças da garota. De noite eu via vagalumes e mariposas, comecei a observá-los, algumas vezes capturava-os e colocava no pote, mas sem intenção de soltá-los. Que estes padecessem no pote, como o meu sentimento dentro do meu coração.
Observando as inúmeras mariposas que eu tinha no pote, uma noite, peguei uma lamparina acesa e colocava-a perto do pote para que sua luz atraísse as mariposas para um único lado do vidro, a grande maioria ia, exceto uma. Só um bom tempo depois, mudando o frasco, a lamparina, percebi que esta mariposa ficava apenas na direção da janela aberta que deixava uma brisa fresca entrar em meu quarto, isto me intrigou profundamente.
No dia seguinte recebo uma carta, daquela garota, que estava distante, em uma cidade grande, a carta tinha perfume, tinha cor, carinho e amor...
O senhor suspirou fundo, levantou-se se apoiando no rapaz e pegou um lenço que estava em seu bolso de traz da calça, e também pegou a sua carteira, da qual tirara um papel todo amarelado, com as bordas rasgadas e quase esfarelando, era um papel velho, mas dobrado com carinho e com maior zelo ele abriu e começou a ler:
“Amor, aqui, longe de ti, pude perceber que você é a pessoa mais especial que pode passar em minha vida, eu estou bem, tenho um emprego bom aqui, minha família está mais unida, estamos todos bem, espero que esta carta chegue a você e não se perca como o teu lindo e fascinante pote de borboletas, o qual eu abriria contigo e me encantaria com todo o amor que tivesse dado a cada borboleta daquele vidro. Sim, eu sabia que ele existia. E sei que você libertou-as com o coração tão apertado quanto ao me dizer para seguir em frente e ser feliz, pois você não queria parar o meu vôo...”
O velho parou de ler, ficou olhando para o papel e depois de um bom tempo o dobrou com cuidado e novamente colocou-o em sua carteira, guardando-a, quando o rapaz o interrogou:
_ Prossiga senhor, e vocês? Ficaram juntos? Como foi? – apoiando a mão sobre a perna do senhor para que este pudesse senti-lo e ao mesmo tempo não levantasse para se despedir – me conte, me conte mais, pelo brilho triste de teus olhos vocês não ficaram juntos...
O velho olhou para o rapaz sorriu como se acabasse de chegar e disse de uma forma calma e clara:
_ Sabes por que aquela mariposa não seguia a luz da lamparina? Por que ela se apaixonou por uma estrela que sempre via da janela do meu quarto. Você mesmo pode questionar que mariposas não podem se apaixonar por estrelas, pois as estrelas não foram feitas para que mariposas possam voar em torno delas. Para as mariposas haveriam luminárias, postes, lamparinas.
Mesmo assim a mariposa poderia se sentir alegre ao sonhar, durante a noite a estrela continuava lá e a mariposa poderia subir até o céu e demonstrar todo o seu amor voando em torno daquela luz radiante, poderia. Seria muito difícil ir além da altura com que estava acostumada a voar. Mas isto não iria fazer com que a mariposa desistisse. Se a cada dia ela pudesse voar um pouco mais alto, com paciência ela poderia chegar ao seu amor.
Todas as outras mariposas já estavam queimadas pelas lâmpadas e chamas, onde poderia apenas o calor de lâmpadas e chamas aquecer o coração de uma mariposa e não uma estrela, distante. Mesmo esta mariposa tentando se apaixonar por abajures, luminárias ou velas, nada a fazia esquecer da estrela. Ela poderia sim, retomar a sua caminhada ao céu.
Ela poderia a cada noite voar mais alto e mesmo quando a manhã chegasse e o frio e tristeza a apertasse por não ter encontrado a estrela, com o tempo ela poderia perceber que lá do alto ela poderia ver as cidades cheias de luzes, onde talvez as outras mariposas já houvessem encontrado um amor, poderia ver montanhas geladas, oceanos, nuvens que mudavam de forma, seguir os ventos de montes, poderia ser levada pela brisa da noite, assim esta mariposa passou a amar cada vez mais a tua estrela, por que esta estrela levava a pequena mariposa para um passeio em um mundo tão rico e lindo.
Ela viveria muito mais do que as outras mariposas que se renderam a um amor fácil e que morreriam pelas queimaduras deste amor.
O velho se levantou e com um sorriso de despedida disse que estava atrasado e seguiu com os seus passos calmos e cansados acompanhado pelos olhos do rapaz que lhe perguntou:
_ Senhor, qual a moral da história? É muito bonita, intrigante, porém eu não entendi algumas coisas, como se você encontrou a garota com que vivera, por que toda vez você enfatizava o “poderia” ao falar da mariposa, e qual a moral da história?
_ Meu jovem – o senhor parou, se virou e continuou - a moral da história? Claro, quando você chega na estrela, ela não te queima e sim te cuida e sempre sentirá a tua falta na noite seguinte que você demorar para chegar em casa.
Sobre os “poderia” da história, é que a mariposa poderia fazer tudo aquilo novamente se uma brisa de uma noite não a levasse ser presa em um frasco de vidro e assim ela poderia viver e sentir na pele, compreendendo que, às vezes, os amores impossíveis trazem muito mais alegrias e benefícios que aqueles que estão ao alcance de nossas mãos. E a moral, a moral da história meu jovem, é que eu acabo de abrir o pote de vidro que o aprisionara. Uma boa noite...
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