domingo, 22 de agosto de 2010

Cata-vento

_ Qual a chance de voltar a encontrar-te por aqui, em uma próxima vez que eu vier lhe procurar? – perguntou um garoto àquela brisa que lhe tocava o rosto naquele entardecer, onde o céu se tornara alaranjado de gratidão pelo pequeno expectador que o contemplava com a sua maravilhosa companhia.
_ Praticamente todos os dias, meu bem! – respondeu a garota por quem o garoto as apaixonara sem tocar – Eu estarei contigo sempre, em todos os lugares, em todos os instantes.
O garoto feliz por tudo o que vivera aquele instante acreditou que aquela brisa fosse um anjo, e como diz Clarice Lispector “Ela acreditava em anjos, e por que acreditava, eles existiam”, assim ele imaginava o anjo que passara aquela tarde acolhendo-o em corpo e alma, pensava que às vezes os anjos podiam não ter asas como diziam os contos, como mostravam os filmes, mas que os anjos não são simplesmente como enxergamos as pessoas, mas sim como as imaginamos. Mas este raio e brisa em um só ser, era, em uma só pessoa, todos os anjos contidos em uma só imagem, que ao fechar os olhos e sentir-se abraçado, e algumas vezes até beijado, ele via, desfrutava e assim sonhava diversas vezes acordado.
No caminho de volta para casa, após se despedir de toda a cena que ele ousara em criar e descobrir, mas que se contasse ou que se mostrasse para alguma pessoa, ninguém acreditaria nele, passaria como um louco que sempre quisera um amor e encontrara um, perfeito, mas que está mais ao longe do que o horizonte pudesse lhe mostrar.
Seguindo por aquele quarteirão, sentia a brisa lhe acompanhar e via as flores na calçada se movendo ao toque suave deste teu sonho, via as folhas de árvores que se deixavam acolher sem medo de uma possível queda livre das mais altas, simplesmente para sentir uma única vez o toque supremo daquela que conseguira fazer com que a folha se apaixonasse e se desatasse de seu galho, para viver este amor.
Praticamente todos os dias ele viveria este amor e assim ele ficou acordado por muitas horas em teus pensamentos e em tudo o que via. Abriu a janela para ouvir um “Boa Noite, Durma bem meu amor”. Dormiu.
Aquela brisa entrara em teu quarto, como se em um desejo pretendido daquela que se fez anjo para este garoto, e ficou ali, acordada simplesmente para ouvi-lo respirando enquanto dormia e de uma forma inexplicável chegou tão perto do garoto que este inspirou esta brisa de amor, que tomou conta de teu peito e o fez sonhar com ela – a partir de agora o teu Anjo, a tua amada.
Naquele sonho, a brisa saiu dos pulmões do garoto pelo suspiro apaixonado que este, inconscientemente, soltou e antes de ficar triste por ter saído do peito dele, viu-o sorrindo e com alegria também, se aconchegou ali.
O garoto acordou sentindo o perfume Secreto de uma Vitória do teu amor e foi este odor maravilhoso que lhe fez acordar com algo inexplicável por esta garota, o coração dele acelerou por exaltação e esta garota que se tornou o anjo que se comunica em brisa e vento provenientes de terras muito distantes, onde Barreira nenhuma poderá impedir o sentimento.
Ele levantou de sua cama, e foi até o local onde eles se encontraram na primeira vez, pode senti-la como se estivesse ali, mas não conseguia vê-la. O anjo desesperado se esgotava em forças para fazer ventos mais fortes, com sopros, suspiros ou mesmo – se possível – com o bater de suas asas, entretanto o garoto não a via, mas podia sentir, sabia que ela se esforçava.
Pediu uns instantes a ela, para que ela o esperasse naquele mesmo lugar, que ele voltaria com uma surpresa. Ele voltou com umas folhas, cola, tesoura, palitos e um alfinete. Ela pensara que a surpresa seria um presente, imaginou que fosse qualquer coisa, mas ele sentou ali, chamou-a e disse para ela apenas olhar.
O vento cessou atento apenas ao garoto, os barcos à vela pararam de navegar, as folhas não mais caíram, os moinhos se tornaram estáticos, não havia vento para ninguém. A atenção era apenas naquele garoto.
Ele dobrou a folha em algumas partes como se abraçasse definitivamente e marcasse na memória daquele papel que este foi eternamente abraçado pelo garoto, cortou a folha como quem fizesse uma cirurgia em seu próprio corpo, com todo cuidado, zelo como se estivesse gravando na casca de uma árvore os nomes de seu anjo e o seu próprio nome, era o sinônimo do amor.
O papel colorido foi novamente dobrado, mas agora com delicadeza e sem marcas, voltando todas as pontas para o centro do papel, como se mostrasse que o centro das atenções seria as uniões dos quatro pontos: amor, respeito, carinho e ao ultimo ponto colocaria o Anjo, que se ligariam ao centro – ele – para sempre. O alfinete que perfurara estes pontos, fixando-os, simbolizava aquela imortal flecha que corta os corações dos apaixonados.
Sem entender o sorriso do garoto com aquele fascinante objeto em suas mãos e o sorriso exposto na face dele, o anjo pediu uma explicação.
Ele, ainda sentado no banco daquele lugar, levantou o objeto – um cata-vento – e disse:
_ Simples, este cata-vento é o meu coração...
O Anjo ainda questionara, sem entender, por que ela tinha entrado em teu peito na noite anterior e visto o coração dele como nenhuma outra pessoa iria ver. Ele sorriu e continuou:
_ Eu sei que você já viu meu coração, mas sei também que não será sempre que eu poderei ter a gratificante sensação de sentir-te assim comigo. E mais, você, nem sempre poderá ver o quão feliz eu estou ao te sentir tão pertinho de mim. Eu fiz este cata-vento para que seja possível eu lhe ver, e você ver a minha reação quando isto acontecer.
Era tão lindo o que o garoto dizia que o Anjo, suspirou.
Este suspiro fez o cata-vento virar, linda e indescritivelmente, os olhos do Anjo se encheram de lágrimas de felicidade e o garoto continuou:
_ O cata-vento, meu anjo, é o meu coração, e qualquer brisa que haver perto de mim é você, meu amor, como este teu suspiro que acabara de soltar. Agora posso te mostrar o quanto o meu coração se agita ao te ver e mesmo eu estando paralisado pela tua beleza, pelo teu sorriso, neutralizado pelo teu olhar.
Você é a ventania que em sentimentos faz a minha fragata chegar a destinos que eu nunca pensei em ir, você é o vento repentino que espanta as nuvens negras que querem desaguar lágrimas em meus olhos, e agora eu te mostro que você é a brisa que faz girar o cata-vento de minha alegria.
Após ouvir isto, os veleiros voltaram a se mover, as folhas caírem em aconchego do vento e o garoto... O cata-vento eternamente ficou a girar.

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